NOSSAS EXPERIÊNCIAS: Encarcerados (as)
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15 de mar. de 2012

 

A SOLIDÃO COLETIVA DE MULHERES PRESAS

por Alice Marcondes, especial para EnvolverdeMulher presa 300x195 A solidão coletiva de mulheres presasAs prisões são um universo paralelo, onde as pessoas vivem sua solidão em relações baseadas no medo, na violência e na angústia das incertezas.


Quando iniciou sua atuação em uma penitenciária feminina da cidade de São Paulo, a psicóloga Fernanda Cazelli Buckeridge, do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de São Paulo (USP), não tinha como objetivo analisar o cotidiano das presas, porém, a convivência atraiu seu interesse para o assunto. De sua participação durante um ano em oficinas psicossociais realizadas por uma ONG, surgiu a pesquisa “Por entre as grades: um estudo sobre o cotidiano de uma prisão feminina”, que teve como resultado um retrato da realidade de solidão que preenche o dia a dia das detentas.

“São muitas mulheres que estão juntas e sozinhas ao mesmo tempo. É unânime um sentimento de que não se pode confiar em ninguém. Talvez a posição de sigilo que tínhamos nas penitenciárias tenha sido um fator estimulante para que elas se abrissem mais. Percebemos que casos de amizades construídas lá dentro são muito raros. Devido ao ambiente de violência em que vivem, elas têm sempre a preocupação de não demonstrar fraqueza, o que dificulta a criação de vínculos. Evitam chorar e não se sentem a vontade para expressar suas opiniões, até por medo de facções criminosas dominantes. As únicas situações em que vimos quadros diferentes foram nos momentos em que alguma delas estava com problemas de saúde ou em trabalho de parto. Nestas situações, elas demonstram solidariedade umas com as outras”, comenta a psicóloga.

As detentas são em sua maioria jovens, com idades entre 18 e 30 anos, e de uma classe social baixa. O tipo de crime que as levou para lá varia bastante, mas os mais comuns são tráfico de drogas e tentativa de entrarem em prisões masculinas com artefatos para seus maridos. “O fato de muitas delas terem seus companheiros também detidos influencia em outro ponto que agrava a situação de solidão, que é o baixo número de visitas que elas recebem. Porém, mesmo quando não estão presos, não é comum que os parceiros estejam presentes. Os filhos também não são comumente vistos, pois a maioria delas prefere assim. Temem passar um mau exemplo, acreditam que não é um bom ambiente e consideram o procedimento da revista muito invasivo. Isto faz com que os laços com o mundo exterior sejam enfraquecidos. Sem ter como amenizar a situação por meio de novas amizades, elas sentem-se solitárias”, diz Fernanda.

Outra situação diagnosticado pela pesquisa foi o forte sentimento de angústia demonstrado pelas detentas que ainda não foram julgadas. “É muito difícil para elas não saber quanto tempo ficarão lá. Depois que são julgadas e têm uma sentença, esta aflição passa e fica mais fácil para elas encararem a situação”, lembra a pesquisadora.

Para Fernanda, um dos pontos mais importantes de sua pesquisa é a humanização da questão. “É muito comum que essas mulheres sejam enquadradas pela sociedade em estereótipos extremistas. Ou elas são vítimas e cometeram crimes porque não tiveram escolha, ou têm uma natureza ruim e merecem castigos severos. Porém, a convivência nos mostra que esta teoria não se sustenta. É preciso entendê-las individualmente. A pesquisa levanta pontos relevantes que deveriam ser considerados. Ao mesmo tempo em que fala-se tanto em direitos humanos, existe também uma parcela da população que pede castigos mais rígidos. A sociedade deveria encarar essas presas de maneira humana, pois isso facilitaria um melhor entendimento sobre o contexto social em que vivemos”, conclui a psicóloga. (Envolverde)

fonte: http://www.envolverde.com.br/


14 de mar. de 2012


CÁRCERE FEMININO.

       MAIS DE 15 MIL MULHERES FORAM PRESAS,EM CINCO ANOS.


Nos últimos cinco anos, 15.263 mulheres foram presas no Brasil. 

A acusação contra 9.989 delas (65%) foi de tráfico de drogas.
 
Esses dados foram apresentados, nesta quarta-feira (29/6), 
pela socióloga Julita Lemgruber,durante o Encontro Nacional 
do Encarceramento Feminino,que o Conselho Nacional de Justiça 
realizou em Brasília.

A socióloga, ao afirmar que essas mulheres atuam como pequenas 
traficantes 

– geralmente apoiando os companheiros – defendeu a adoção de penas 
alternativas à de prisão para que elas possam retomar a vida e, 
principalmente, criar os seus filhos. 

“Essas mulheres desempenham um papel secundário no tráfico; 
muitas vezes são flagradas levando drogas para os companheiros 
nos presídios. 
Elas não representam maiores perigos para a sociedade e poderiam 
ser incluídas em políticas de reinserção social”,disse Lemgruber, 
que foi a primeira mulher a chefiar a administração do sistema 
carcerário do estado do Rio de Janeiro.

“Além disso, quando o homem é preso,os filhos ficam com suas mulheres. 
Mas quando a mulher é presa, geralmente o companheiro não fica com os 
filhos, que acabam sendo punidos e passam a ter na mãe um referencial 
negativo. 

Essa é uma situação que tem tudo para reproduzir a criminalidade, 
já que essas crianças poderão seguir o mesmo caminho que os pais”, 
analisou a socióloga.

Ela alertou para o fato de o percentual de mulheres presas estar 
crescendo numa velocidade superior ao que ocorre com os homens. 
“Esse é um fenômeno mundial. 

Historicamente as mulheres representavam entre três e cinco por cento 
da população carcerária mundial. 
Nos últimos anos esse percentual chegou a 10%”, disse, acrescentando 
que esse aumento tem agravado os problemas das mulheres no cárcere.

“É bastante comum o fato de as mulheres não disporem de qualquer 
assistência diferenciada. 

São tratadas como homens, tanto em termos de estrutura das prisões 
como também em relação ao tratamento que é dispensado a elas. 
Um exemplo muito triste é que, em muitos casos, elas não têm acesso 
a um simples absorvente quando estão menstruadas. 
São obrigadas a improvisar usando miolo de pão”, declarou Lemgruber.

O conselheiro Walter Nunes da Silva Júnior,do CNJ,afirmou que o Brasil 
desconhece a realidade das mulheres que estão presas no País. 

“A questão carcerária, de um modo geral e, em particular, a relacionada 
às mulheres privadas de liberdade,só passou a ser discutida pela sociedade 
em função dos mutirões carcerários realizados pelo CNJ”,disse o conselheiro, 
referindo-se às inspeções feitas,desde 2008,em unidades prisionais de todo 
o País para o diagnóstico das condições de encarceramento e a recomendação 
de melhorias que permitam a reinserção social dos detentos.

“Hoje nós temos cerca de duzentas crianças vivendo em presídios. 
Isso é muito grave”, declarou o conselheiro.
Walter Nunes observou que, “lamentavelmente”, o aumento da participação 
das mulheres na criminalidade se deve,entre outros fatores,à sua emancipação 
econômica. 
Com informações da Agência de Notícias do CNJ.

fonte: http://www.conjur.com.br/

13 de mar. de 2012

            MÃE E CONDENADA POR LEVAR  DROGAS PARA O FILHO.



Uma mãe foi condenada por levar drogas para o filho preso no Complexo Penitenciário da Papuda. A decisão foi tomada pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, que manteve sentença. A pena foi fixada em 1 ano, 11 meses e 10 dias de reclusão, em regime inicial fechado, mais 166 dias-multa ao valor unitário de 1/30 do salário mínimo vigente à época dos fatos. Cabe recurso.

Consta da denúncia do Ministério Público, que em fevereiro de 2010 a ré, por livre e espontânea vontade, levou, na vagina, 2 porções de maconha (69,50 g) e 1 porção de cocaína (16,37 g) infringindo o artigo 33 c/c artigo 40, inciso III da Lei 11343/06 (tráfico de drogas cometido nas dependências de unidade prisional).

Na sentença condenatória, o juiz da 1ª Vara de Entorpecentes afirmou que a quantidade de maconha e cocaína apreendida com a mulher é incompatível com a versão de que a droga seria usada pelo filho.
Segundo pesquisa feita por ele, um cigarro de maconha possui de 0,5g a 1g da erva cannabis sativa, enquanto a quantidade necessária à overdose de cocaína varia de 0,2g a 1,5g da substância pura. "Não é crível que o filho da ré fosse consumir toda essa droga no presídio, diante das vistas dos policiais. A quantidade de droga apreendida com a ré foge ao padrão da simples posse para uso, conforme demonstra a experiência forense", afirmou.

A mulher foi presa em flagrante durante a revista policial e conduzida ao IML para que a droga fosse retirada da cavidade vaginal. No entanto, pela quantidade significativa das substâncias armazenadas, não foi possível a extração e a mulher foi encaminhada ao Hospital Regional da Asa Norte, onde teve que se submeter a procedimento cirúrgico.

Em depoimento prestado à Justiça, a ré afirmou que foi induzida a praticar o crime por causa das ameaças que o filho recebia de outro detento. Contou que a nora começou a lhe telefonar falando das ameaças e pedindo que ela transportasse a droga, pois estava "suja" no presídio e não podia ajudar o companheiro, ameaçado por causa de dívida contraída na prisão. Com Informações da Assessoria de Imprensa do TJ-DF.

Revista Consultor Jurídico, 8 de junho de 2011

Presas convivem com o drama de sobreviverem longe dos filhos


                              Por Cristina Esteche e Dalner Palomo


A maioria é condenada por tráfico de drogas.

A cor cinza que predomina nos cubículos traduz o estado de espírito das mulheres que se aglomeram nas três celas da Cadeia Pública de Guarapuava, das quais quase em sua totalidade presas por tráfico de drogas. Das 41 mulheres que estão nessa condição apenas duas estão presas por homicídio.

Somente num espaço, 23 presas convivem e dividem os dramas. Atrás de cada prisão há histórias marcadas pela luta da sobrevivência. São pessoas casadas com traficantes, usuárias, abandonadas mães com filhos para criar, que moram em outros municípios, outros estados e em Guarapuava. A faixa etária surpreende, pois é grande o número de jovens entre 19 e 20 anos, passando também por senhoras acima de 40 anos. Quase todas possuem filhos e é o destino deles que mais as preocupa.

Quando entramos na cela o primeiro momento foi de receio, mas aos poucos, elas foram se aproximando e dando vazão aos seus sentimentos. Explosões de choro foram seqüentes à medida em que cada uma queria contar a sua história. É como se fôssemos o único elo entre elas e o mundo exterior às paredes da cadeia.

Maria Valdete Soares, 48 anos, é de Salto Del Guairá, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Ela está presa há 1 ano e 10 meses e nunca mais teve contato com a família pela dificuldade econômica. Condenada há 8,9 anos por tráfico de droga, conseguiu baixar a pena para 5 anos. Mãe de cinco filhos, dos quais o menor possui 10 anos de idade. “Entrei para o tráfico para poder pagar a faculdade dos meus filhos, mas hoje sei que dinheiro nenhum vale a liberdade e nem a saudade insuportável que sinto dos meus filhos. A minha maior dor é que desde que estou presa nunca mais passei o Dia das Mães na presença deles”, fala

Jussara do Nascimento, 40 anos, é reincidente por tráfico de drogas e de armas, e está condenada há 11 anos e 8 meses. “Saí da prisão e caí de novo quando estava 30 dias na rua”, conta. Moradora em Foz do Iguaçu, mãe de três filhos, diz que entrou para o submundo das drogas por necessidade financeira. “Minhas dívidas foram se acumulando e a única saída que encontrei foi o tráfico. Quando saí após ter ficado presa durante três anos, procurei emprego. Mas quando você tem o rótulo de presidiária as coisas ficam ainda mais difíceis”, afirma. “Você sabe o que é chegar em casa e ver um filho chorando de fome, ver outro dizer que vai largar a faculdade porque não pode pagar? A única saída que tive foi voltar para o tráfico, mas hoje como pão com ovo para ficar junto com os meus filhos”, assegura.


“O JUDICIÁRIO QUANDO CONDENA
NÃO SABE O CONFLITO QUE GERA”

A história de Elizete Freitas, 36 anos, que mora no município de Candói, não é diferente. Mãe de um filho, foi presa com 60 gramas de maconha encontradas dentro de um travesseiro que tentou “passar” para o esposo que também está preso. “Ele é viciado e sei o que ele sente quando fica sem a droga. Eu nunca trafiquei”, diz.

Zélia Zuleck, 42 anos, mora na Vila Primavera em Guarapuava, é usuária de crack e diz que foi presa com 16 pedras de crack de “cincão” cada uma. O valor é citado para dizer que as pedras eram pequenas. “Não dava duas gramas”. Condenada a 5 anos e 10 meses de prisão deixou dois filhos sozinhos. “Não sei onde e com quem eles estão”, diz entre lágrimas.

“Quando o judiciário condena uma pessoa não sabe o conflito que existe por trás e que se agrava ainda mais. São crianças que ficam sem mães. Eu cuidava da minha que tem Alzheimer. Tivemos que montar uma mini UTI em casa. Tenho uma filha hoje com 10 meses e que eu amamentava e que há três meses não vejo”, relata Mari Ramires, de Foz do Iguaçu,enquanto chora compulsivamente. Ela e o marido foram presos há três meses com 164 quilos de maconha que seria levado para São Paulo.

As histórias são muitas e se confundem. Marines Albuquerque está na cadeia há 8 anos. Morava no Alto da XV em Guarapuava e ficou viúva no dia 17 de abril. Tem uma filha com 16 anos que está grávida e outros dois filhos. Foi presa por escuta telefônica quando conversava com o namorado da filha que é acusado por tráfico de droga. “Não sei como estão meus filhos. Não sei quem vai cuidar da minha filha quando o bebê nascer”, diz.

Amanda, Adriana, Tatiane, Michele e tantas outras também protagonizam histórias patrocinadas pelo tráfico de drogas. Algumas foram flagradas com grande quantidade, outras foram traídas apenas por palavras, mas dividem a mesma dor que é agravada pela ausência dos filhos no Dia das Mães. A solidariedade, a cumplicidade que encontram uma na outra quando incentivam que esta ou aquela conte a sua história chama a atenção. Assim como as toalhas e as roupas coloridas penduradas pelo teto e pelos beliches tentam esconder as infiltrações que racham a parede. Como se fossem as fissuras que essas mulheres, independente do que e porque fizeram, fazem um recorte em suas vidas.

12 de mar. de 2012


Presa ajudou traficante depois que ele sequestrou seu filho



O Fantástico mostra a realidade das chamadas “mulas do tráfico”. Elas relatam quais motivos as levaram a participar do crime.

Veja as histórias de mulheres de várias partes do mundo que acabaram presas no Brasil depois de serem recrutadas pelo tráfico internacional de drogas. Na reportagem de Eduardo Faustini, você vê os relatos dessas mulheres, que nunca tinham cometido um crime, e o drama das famílias que elas deixaram a milhares de quilômetros do Brasil.

Mulheres foram presas no aeroporto de fortaleza. São as chamadas mulas do tráfico.
“A gente vê as pessoas se arrumando, indo esperar seus familiares, e nós tendo a certeza que não vamos receber nenhuma visita”, conta Mafalda Correia Pires, que está em Portugal.

O presídio feminino Auri Moura Costa, na Região Metropolitana de Fortaleza, abriga 420 mulheres. Ao todo, 49 são estrangeiras.

Elas foram presas quando tentavam sair do Brasil levando drogas. Este ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) apontou o Brasil como o principal corredor de cocaína do mundo. Uma das rotas mais usadas pelas quadrilhas começa na Colômbia, passa por São Paulo, Nordeste do Brasil, África Ocidental e termina na Europa.

Vinte mulheres da cadeia são de Guiné Bissau e de Cabo Verde, na África. Representam quase a metade das estrangeiras presas. “Quando eu sair daqui, eu espero nem um dia me iludir de novo com dinheiro”, afirma Abdezela Pereira Duarte, presa de Guiné-Bissau.

Durante um mês, o Fantástico investigou essa rota do tráfico. Descobrimos como essas mulheres são aliciadas, o drama das famílias que vivem no exterior e a força-tarefa criada para combater esse crime, que não respeita fronteiras.

Na única penitenciária feminina do Ceará, as regras são rígidas. Não há registros recentes de fugas ou rebeliões. “A maior dificuldade realmente é a questão da língua, que a gente tenta inserir através da escola e também a distância da família”, diz a diretora do presídio, Socorro Matias.

Mulheres que foram presas no aeroporto de Fortaleza são as chamadas mulas do tráfico.

“Essas pessoas, muitas vezes, são movidas pela emoção. Elas se apaixonam por um homem. Por esse homem, ela faz tudo, se sujeita até a traficar droga. Muitas vezes, ela é coagida. Ganha um trocado ali para usar seu corpo, para usar sua mala”, revela José Bento Laurindo de Araújo, coordenador do sistema penal do Ceará.

“Se o crime foi cometido em território brasileiro, a pena será cumprida em território brasileiro”, esclarece o advogado Auricélio Paiva.

Mandy Veit é da Alemanha. Condenada a nove anos, diz que entrou no crime, porque queria comprar uma casa para morar com o filho. “Eu queria voltar no passado, para fazer coisas melhores. Queria ser uma pessoa melhor”, revela.

A cada 15 dias, as estrangeiras podem usar o telefone da cadeia. Mandy liga para a família, no dia do aniversário da mãe.

O Fantástico foi à casa de Mandy, que fica em uma área rural da Alemanha, perto da fronteira com a República Tcheca. Encontramos os pais e o filho dela, de 12 anos. Eles viram o vídeo gravado na cadeia. “Espero que você saia logo daí”, disse a mãe de Mandy. “Nós te perdoamos, não importa o que tenha acontecido”, falou o pai, que é engenheiro. “Aquele amor que só uma família dá pra você falta muito aqui. Falta demais”, reconhece Mandy.

Mandy é exceção na cadeia. Além de ter nascido em um país rico, elas estava na faculdade: fazia fisioterapia.

Já o que a maioria relata é um passado difícil. “Eu preciso de dinheiro para ajudar a minha filha que está doente, que tem problema de rim”, conta Abdizela Pereira Duarte, presa de Guiné Bissau.

Muita miséria e africanas que falam português. Segundo a polícia, isso explica por que as quadrilhas internacionais têm aliciado mulheres de Cabo Verde e de Guiné Bissau. Além disso, o aeroporto de Fortaleza é considerado mais vulnerável que os de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Em abril, Vitalina, de 26 anos, e Dulce, de 28 anos, saíram de Cabo Verde e chegaram à capital paulista. Elas receberam de um traficante cerca de oito quilos de cocaína. De São Paulo, as duas pegaram um voo para Fortaleza, onde ocorreu a prisão. Vitalina e Dulce receberiam o equivalente a R$ 10 mil cada uma. “É a dívida, situação de casa. Eu queria ajudar o meu marido de alguma forma. Só que deu tudo errado”, lamenta Vitalina Fernandes Correia.

Elas vão ficar quatro anos na cadeia. “Nós, mulas, não ganhamos. Quem ganha é o traficante mesmo. O que nós ganhamos é sofrimento, dor, vergonha da família”, confessa Dulce Helena dos Santos, presa de Cabo Verde.

Eloni Kintasambe, 25 anos, é de Guiné Bissau. Segundo a polícia, ela tentava levar cinco quilos de cocaína dentro de canecas de alumínio. Ela é uma das poucas estrangeiras que recebem visita na cadeia. O irmão dela se formou em enfermagem no Ceará. “Esse momento não é momento de críticas, não é momento de abandono, esse é momento de apoio”, acredita Isaac Sambé.

Em dois meses, Eloni também terminaria o curso de enfermagem. “Eu estava um ano e dez meses sem ver a minha família. Eu estava viajando para encontrar eles e matar a saudade. Só que a minha conhecida pediu pra levar encomenda para a mãe dela. A encomenda era droga. Na verdade, eu não sei dessa droga”, conta.

Pedimos a várias dessas presas que gravassem mensagens para a família. Depois, o repórter Eduardo Faustini e o repórter cinematográfico Alberto Fernandez foram para a África investigar todas essas histórias.

A nossa equipe começa a busca por informações em Cabo Verde. O país deixou de ser colônia portuguesa em 1975. Tem cerca de 400 mil habitantes que vivem da agricultura e da pesca de atum.

No fim de outubro, os porteiros do cais estão em greve por melhores salários. Em Cabo Verde, é difícil encontrar quem ganhe mais de R$ 150 por mês. E, entre os desempregados, a maioria tem menos de 25 anos.

“Quando eles chegam em casa, o que eles vão fazer? Entrar no vício de bebida e drogas. Falta do trabalho”, explica um homem.

Em uma casa, moram a mãe, a irmã e a filha de Soraya Clarete. Ela está presa no Ceará, por transportar três quilos de cocaína. “A Soraia estava muito à procura de trabalho, mas ela não encontrou por aqui”, declara uma das parentes dela.

A família conta que Soraya nunca tinha se envolvido em crimes até conhecer um traficante da Nigéria, país africano onde, segundo as autoridades internacionais, ficam os chefes de várias quadrilhas. Soraya receberia o equivalente a R$ 3 mil para levar as drogas. “É doloroso ver uma coisa assim acontecer, com uma pessoa que você gosta. A minha mãe não fala nada, mas ela chora todas as noites”, revela uma das parentes da Soraya.

A mãe grava uma mensagem para Soraia em crioulo, a língua nativa de Cabo Verde. “Ela falou que me ama muito, que ela gosta de mim. Eu estou sentindo muito, porque eu vi que a minha mãe está diferente. Ela não era assim. A minha mãe era mais forte. Quando eu estou aqui, ela fica sentindo muito”, diz Soraya.

Em Cabo Verde, encontramos também as famílias de Vitalina e de Dulce, presas com oito quilos de droga no aeroporto de Fortaleza. A emoção é grande. “Eu tenho vergonha do meu filho. Esse não é o futuro que eu queria”, lamenta Dulce.

“Quando ela chegar em casa, eu vou falar para ela nunca mais fazer o que ela fez”, diz uma das parentes de Dulce. “Quando vir para a sua casa, ela me encontra aqui ou vivo ou morto”, um homem declara para a detenta. “Eu quero mandar muito cumprimento para a minha mãe. Mãe, eu perdoo você”, diz o filho de Dulce.

Há 14 anos, o marido de Vitalina, Sany Fernandes Correia, trabalha como garçom em um dos restaurantes mais tradicionais de Cabo Verde. O casal tem dois filhos. “Os meninos não dormem em casa, porque eu trabalho à noite. É muito problema”, admite.

“Não podia dar ouvidos a essas pessoas, só porque ela quer ter uma boa casa, um carro, vida boa. Agora, imagina a vida boa. Está presa!”, critica Mandina Luiza Correa, irmã de Vitalina.

“Amor da minha vida, a única coisa que eu quero dizer é força e coragem. Te amo muito. Um beijo”, diz Sany.

“Que ele me perdoasse por tudo que eu fiz, que eu vou sair daqui outra mulher, que eu amo ele muito e os meus filhos e a minha família”, confessa Vitalina.

A droga que Vitalina e Dulce tentavam trazer do Brasil iria para a Europa. A estimativa é que as quadrilhas distribuam entre 200 e 300 toneladas de cocaína por ano naquele continente.

Em 2009, das 822 apreensões na Europa, 122 foram em voos que saíram da África Ocidental. Nossa equipe partiu de Cabo Verde e foi para Guiné-Bissau, que é o país dessa região do mundo que mais preocupa a ONU. São cerca de 1,5 milhão. O país se tornou independente de Portugal em 1974. Em 1999, enfrentou uma guerra civil. Sem saneamento básico, sem indústria e sem emprego, Guiné-Bissau atraiu o interesse das quadrilhas.

Encontramos os irmãos de uma das mulheres presas no Brasil, passando fome e sede. A irmã dele é Abdezela Duarte, condenada a cinco anos e meio de cadeia. Ela conta que iria transportar a droga, porque o traficante prometeu bancar um transplante de rim para a filha doente. “Se eu pudesse falar com ela, eu pediria perdão e fazia ela entender o motivo do meu abandono”, deseja Abdezela.

“Eu sinto muita falta dela. Te amo muito”, emociona-se o irmão.

A filha de Abdezela, de 6 anos, não está em casa. Depois da prisão da mãe, a criança foi levada pelo pai. “Está doendo no fundo do meu coração, sabendo que eu não posso estar lá para ajudar, porque, por mais pobre que eu seja, mas nunca apagou o fogão da minha casa. Eu nunca comi na minha casa o que a minha irmã está comendo hoje”, ressalta Abdezela.

Em Guiné-Bissau, grande parte do comércio é feito no meio da rua. Não há agências bancárias. Os estrangeiros que precisam trocar dinheiro são disputados quase no tapa.

Um guarda exige propina para permitir a gravação de imagens. “Fizemos uma análise e vê-se que é a corrupção que está na base da entrada de droga no nosso país”, esclarece Lucinda Barbosa Alcarien, diretora da polícia de Guiné Bissau.

Outro exemplo do caos. Sem ser incomodados, nossos repórteres entram na maior emissora de TV do país, que pertence ao governo de Guiné-Bissau.

Dentro, a surpresa. Os corredores, a redação de jornalismo, os equipamentos: está tudo abandonado. Há mais de três meses, as transmissões pararam. Não há fornecimento regular de energia elétrica. “Há mais de 30 anos, estamos nessa caminhada. Não há luz, não há água. É mesmo difícil alguém fazer previsão sobre o futuro dessa terra”, declarou o contabilista Samuel da Rosa.

Luz em casa, a qualquer hora, só com gerador a diesel. Mas, se as pessoas compram o combustível, falta dinheiro até para a comida. E olha que o chefe da família tem um bom emprego. Antônio Sambé, pai de Eloni, trabalha há 27 anos no Ministério das Finanças de Guiné-Bissau. “Tudo escuro, como vocês estão a ver, tudo escuro. E não sei até quando”, conta.

Eloni Sambé é acusada de tentar transportar cinco quilos de cocaína dentro de canecas. No aparelho de DVD, movido à pilha, mostramos as imagens da moça presa no Brasil, a mais de três mil quilômetros de distância.

O pai acredita na inocência da filha. “Nós não vivemos de drogas. Vocês podem ver. A minha casa é modesta. Que ela tenha coragem. Fé em Deus, porque o Deus que nós servimos é poderoso”, aponta Antônio Sambé.

“Meu pai deve estar arrasado mesmo, porque ele tem problema de pressão. Ele é doente, mas ele sempre foi um homem forte”, afirma Eloni.

Em 2007, a ONU criou uma força-tarefa pra combater o tráfico de drogas no mundo. O chefe do escritório local das Nações Unidas diz que era comum ver traficantes colombianos desfilando em carros avaliados em mais de R$ 500 milhões. Os criminosos também moravam em mansões e conviviam com políticos, governantes e militares.

“Eles iam jantar nos restaurantes, gastavam dinheiro em quantias exorbitantes. Sabia-se que forças governamentais e militares estavam implicadas no tráfico de drogas”, explica Manuel Pereira, chefe do Escritório Contra a Droga e o Crime da ONU.

Em abril deste ano, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos fez uma acusação grave: disse que são traficantes o chefe do Estado-Maior da Armada de Guiné-Bissau, o contra-almirante Bubo na Tchuto e o chefe do Estado-Maior da Força Aérea, Ibraima Papa.

Em 2008, Bubo na Tchuto foi acusado de ficar com cerca de 600 quilos de cocaína vindos da Venezuela. Até hoje, o jato está apreendido no aeroporto de Guiné-Bissau.

Procurado pelo Fantástico, o contra-almirante Bubo na Tchuto não quis gravar entrevista. “Gerou-se um sentimento de impunidade, da existência de impunidade aqui em Guiné-Bissau”, afirma Manuel Pereira.

Nessa guerra contra o tráfico, está sendo construída a primeira academia de polícia do país. A obra tem apoio do Brasil. “Precisamos das formações específicas, especializadas, que é para realmente poder permitir um combate sem tréguas dos narcotraficantes”, diz Lucinda Barbosa Alcarien, diretora da polícia de Guiné Bissau.

De volta ao Brasil, com as mensagens gravadas na África, entramos mais uma vez no presídio cearense. Entre todos os casos, um chama a atenção pelo grau de violência. Lucília dos Santos saiu de Cabo Verde e foi presa com dois quilos de cocaína.

Para a família, ela teria se iludido com a proposta de dinheiro fácil. “Quando eu recebi a notícia que ela estava presa, a minha cabeça faltou explodir. Como é que eu vou buscar trabalho, com dois filhos?”, indaga Alvarino Borges, marido de Lucília.

Depois de ver o sofrimento dos parentes, Lucília fez uma revelação. Segundo ela, um traficante sequestrou um dos seus filhos e a obrigou a pegar a droga no Brasil. “ele disse: ‘eu tenho o que dói em você mais’. Que é meu filho. Falei para ele: ‘solta o meu filho, que eu faço o que você quer’”, diz a detenta.

O menino, de 4 anos, está bem. Todas essas histórias misturam violência, miséria e arrependimento. A maioria das presas reconhece: nada justifica o crime grave que cometeram. Que sirva de lição, dizem elas.

“A única coisa que eu tenho que pedir é desculpa e perdão”, disse Lucília dos Santos. “No meu futuro, eu queria trabalhar, cuidar do meu filho. Esse mundo eu não quero mais”, planeja Dulce. “Quem sabe Deus me colocou aqui para aprender a dar valor à vida”, ressalta Vitalina.

11 de mar. de 2012

“Maníaco da Van” conta como foram os estupros e confessa que foi Pastor da Igreja Universal


O acusado de estupro Jéfferson Junio Rodrigues Silva, 28 anos, que ficou conhecido como o “maníaco da Van”, confessou em depoimento, nesta quinta-feira (31), que já foi por 2 anos Pastor da Igreja Universal do Reino de Deus de Caratoíra, em Vitória. Ele foi reconhecido por cinco vítimas que prestaram depoimento na Delegacia de Proteção à Mulher, na Prainha, em Vila Velha, nesta quinta. O advogado de Jéfferson, Clóvis Lisboa, informou que vai solicitar exames para atestar a sanidade mental do cliente para que ele possa ficar detido no Manicômio Judiciário.

Jéfferson informou no depoimento que deixou de ser pastor há um ano pois não aceitou ser motorista de um dos caminhões da Igreja. Depois disso passou apenas a freqüentar os cultos semanais.

O titular do Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) de Vila Velha, delegado Luiz Neves, informou que o “maníaco da Van” chamou a atenção da Polícia pela frieza com que prestou depoimento. “Ele chamou a nossa atenção pela sua frieza. Ele é bastante frio e calculista. Contou com detalhes os estupros que vêm ocorrendo desde o mês de janeiro”.

O delegado ainda informou que Jéfferson pode ter mentido para a Polícia pois os depoimentos do maníaco e das vítimas se contradizem. “Encontramos várias contradições entre depoimentos das vitimas e dele. Tudo leva a crer que ele esteja mentindo e omitindo certos fatos. Como, por exemplo, as armas que elas dizem ter visto: um revólver 38 e uma pistola. Ele alega que estava desarmado quando abordou e estuprou as vítimas”.

Por se tratar de crime hediondo, o advogado informou que, provavelmente, ele não vai cumprir a pena que receber. “É um crime hediondo porque, além de roubo, ele estuprou as vítimas. Somando-se as penas pode dar mais de 100 anos de prisão, mas o cumprimento é de apenas 30 anos pela nossa legislação brasileira”.

As mães de três das cinco vítimas que prestaram depoimento na Delegacia de Proteção à Mulher, nesta quinta, não se contiveram e partiram para cima de Jéfferson quando ele deixou a delegacia. “Você vai pagar por tudo que você fez com a minha filha, seu sem vergonha! Queremos justiça!”, gritavam as mães. Elas ainda descontaram a revolta dando bolsadas e unhadas no “maníaco da Van” durante o pequeno trajeto que ele percorreu da delegacia até o carro de Polícia.

O advogado de Jéfferson, Clóvis Lisboa, disse que vai solicitar o exame de sanidade mental de seu cliente por acreditar que ele não é uma pessoa normal. “O que a gente percebe é que o Jefferson não é normal. Eu vou solicitar exame de sanidade mental dele e a segurança para ele e para a família. Entendo que ele tem que ir para o Manicômio Judiciário. Lá seria o melhor lugar para ser investigada a saúde mental dele”.

Lisboa ainda informou que a família de Jéfferson tem sofrido ameaças de morte. “A família dele tem sido ameaçada diuturnamente. Inclusive a mãe e a esposa, ameaçando tocar fogo na Van, porque o carro não é dele. Essa van foi comprada com indenização da esposa. As ameaças às vezes são anônimas, de bilhetes, de colegas de trabalho do irmão dele, que também vem sofrendo ameaças”.

Logo que saiu da delegacia, Jéfferson foi para o Hospital das Clínicas realizar exames para constatar se ele tem alguma Doença Sexualmente Transmissível (DST). Nesta sexta-feira, pela manhã, será ouvida mais uma vítima de Jéfferson na Delegacia de Proteção à Mulher, em Vila Velha.

A reportagem tentou contato com a Igreja Universal do Reino de Deus mas até às 20h desta quinta-feira (31) ninguém foi encontrado para falar sobre o assunto.

Entenda o caso


Após denúncias das vítimas, a polícia passou a procurar o maníaco. Na tarde de terça-feira (29), os agentes foram até o bairro Morro do Quadro onde reside o dono de uma van com as características passadas pelas moças. As jovens, no entanto, não reconheceram o homem como autor dos estupros.

O “maníaco da van”, foi preso depois que o homem detido, em princípio, relatou aos policiais sobre a existência de outro morador do bairro que era proprietário de uma van azul, semelhante à descrita pela polícia.
Os agentes checaram a informação e prenderam Jéfferson Junio Rodrigues da Silva quando ele chegava em casa. Demonstrando frieza, o maníaco acompanhou os policiais e, ao chegar no DPJ de Vitória, uma das vítimas o reconheceu de imediato.

De acordo com o delegado chefe de Polícia Civil, Hélio Moreira, Jéfferson prestou depoimento e confessou todos os crimes. O delegado confirmou, ainda, que o acusado de fato sempre usava uma van azul para estuprar as moças.

Segundo o chefe de Polícia Civil, Jéfferson andava pelas ruas da Grande Vitória e se apresentava como motorista de transporte alternativo para conseguir que as jovens entrassem no veículo. Em seguida, o acusado mudava o trajeto que dizia fazer, anunciava o assalto, levava as moças para lugares distintos e as estuprava.

Jéfferson vinha cometendo os crimes há menos de um mês. O último assalto seguido de estupro aconteceu na sexta-feira (18). Por volta das 22h, quatro jovens, com idades entre 14 e 20 anos, saíam de um evento Gospel realizado na Praia da Costa, em Vila Velha. As adolescentes deram sinal para que a van parasse e, em seguida, perguntaram ao motorista se ele seguiria para o bairro Paul. Alegando que sim, as moças entraram na Topic.
Nas proximidades de um hipermercado localizado na Avenida Carlos Lindemberg, Jéfferson anunciou o assalto e desviou a rota. O maníaco seguiu para Campo Grande, Cariacica, estacionou o veículo entre duas carretas e passou para o banco traseiro da van, onde estuprou as jovens.

Jéfferson Junio Rodrigues da Silva prestou depoimento, foi autuado e vai responder processo por estupro e assalto. No início da noite desta terça-feira, ele foi levado para um presídio da Grande Vitória. O veículo usado para cometer os crimes foi apreendido pela polícia.

Fonte: Gazeta Online
Presas na Penitenciária de Santana.

Hoje é dia de visita na Penitenciária Feminina de Santana, na zona norte. Do lado de fora, cerca de mil pessoas, muitas crianças, alguns poucos maridos e um número razoável de mães esperam na fila da revista. Para entrar, os adultos vão precisar tirar a roupa e os bebês vão ficar sem fraldas, para que o funcionário tenha certeza de que não há nada ilegal entrando no presídio.

Do lado de dentro das grades, vivem 2.674 mulheres. Metade delas nunca recebe visita. A outra metade passou o sábado se preparando. No único dia em que secadores e chapinhas são liberados, o presídio vira um salão de beleza. Os trabalhos só param no fim da tarde, quando os cadeados são fechados e cada dupla fica trancada na cela em que mora.


                                     Marlene Bergamo/Folhapress

Revista sãopaulo esteve na Penitenciaria Feminina do Estado, onde entrevistou mulheres encarceradas
"Morar" não é força de expressão. É exatamente este o termo que cada uma delas utiliza ao se referir à cela onde fica, todos os dias, das 17h às 7h da manhã, horário oficial de fechamento e abertura das trancas da maior penitenciária da América Latina, que completa 90 anos em 2010.

Obra do arquiteto paulistano Ramos de Azevedo (1851-1928) projetada exatamente para ser um presídio, o prédio tem três pavilhões. A divisão não é por tipo de crime nem por idade, mas obedece à lógica do diretor da penitenciária, Maurício Guarnieri, 48. "No primeiro, estão as mais perigosas, para ficarem perto do olho do funcionário. No segundo, bem no meio e mais cercado, coloco as que mais tentam fugir. No terceiro, ficam as provisórias, que ainda esperam julgamento", explica.

Com 30 anos de serviço, Guarnieri já dirigiu 12 presídios masculinos e está desde 2007 à frente da unidade de Santana. Além da vaidade feminina, que fez abrir a exceção semanal ao secador, ele nota outras peculiaridades. "A mulher é mais provocativa do que o homem. Se alguém vai tirar uma presa da cela, ela faz cena. Arranca a roupa, se lambuza de xampu e ninguém consegue pegar", conta o diretor. As tentativas de fuga também são inusitadas. "Não cavam túneis. No domingo, pintam o cabelo, trocam de roupa com a visita e tentam sair no meio do povo."

Dentro das 1.409 celas, a profusão de histórias tem quase sempre o mesmo enredo: a maior parte das mulheres diz que está na prisão por conta dos companheiros. Há as que foram apresentadas ao crime por eles e as que chegaram ali por terem matado ou mandado matar o marido. Por ressentimento, carência ou escolha, a prisão também é um celeiro de relacionamentos homossexuais. Apenas uma minoria se orgulha dos cônjuges. É o caso das mulheres de Marcola e Andinho, chefes da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), que estão entre as líderes de Santana.

No dia a dia, a rotina de todas é parecida. Sempre ao som de conversas barulhentas, elas fazem as três refeições na cela, num cardápio que varia pouco do básico arroz, feijão, salada e carne. Aqueles refeitórios típicos de filme americano, com mesas longas e todos os presos juntos, não funcionam ali. Na cozinha, que começa a funcionar às 3h da manhã, trabalham 63 detentas. Até o pão do café da manhã é feito internamente.

Outras 1.100 detentas são funcionárias de 13 oficinas, onde produzem armação de óculos, terços, tomadas e pratinhos de festa. Isso além do galpão da Funap, a fundação de amparo ao preso, de onde saem artesanatos de crochê e madeira.

                                      Marlene Bergamo/Folhapress

Na foto, roupas estendidas e objetos pessoais no interior dos pavilhões e das celas ocupadas por várias mulheres.
A fila de espera por emprego é grande, já que a cada três dias trabalhados a presa diminui um na pena, e a remuneração mensal chega a R$ 510, o valor do salário mínimo. O dinheiro fica em uma conta administrada pela unidade prisional e a maioria pede que parte seja enviada à família --muitas sustentam a casa com o trabalho na prisão. Outro tanto pode ser gasto com itens como biscoito recheado, chocolate e cigarro, que são encomendados à própria administração da penitenciária.

A sãopaulo frequentou os pavilhões durante uma semana. A seguir, o depoimento de oito mulheres: desde a que tem a família inteira ali até a que foi concebida dentro de uma prisão e, 23 anos depois, está encarcerada. Na casa das 2.674 mulheres, todas têm uma história para contar.
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"Conheci a Ana na prisão"
Aqui a gente não deixa de viver. Não tem essa de dizer que perdeu tantos anos na cadeia. Você tem lembranças, conhece gente. Eu, por exemplo, estou presa pela quarta vez. Na primeira, eu tinha 18. Minha vida aconteceu aqui. Foi na prisão que eu conheci a Ana, e estamos juntas há seis anos. Ficamos dois anos livres e aproveitamos para fazer um filho. Foi um óvulo meu gerado nela. Na primeira tentativa ela engravidou. Era uma época em que estávamos sem usar droga, mas, assim que soubemos da gravidez, tivemos uma recaída. A gente dormia na rua, vendia coisas pessoais para comprar droga. O bebê precisou ficar na UTI e teve problema no pulmão. Quando ela veio presa, dois dias depois eu vim também. Fui assaltar e dei bandeira na frente da polícia. Inconscientemente, eu queria ficar perto dela. Nem ficamos com o nosso filho. Um amigo está com a guarda provisória. No fundo, é melhor. Não quero que ele tenha este começo. Tenho 32 anos e sou uma sobrevivente do tempo em que era a lei do cão que valia na prisão. Agora a bandeira branca está levantada. Mas mulher é covarde: a maldade é cortar o rosto, jogar água quente. Não quer a outra morta, quer a outra feia. Eu já estou ficando cansada. Parece que eu não tenho o direito de querer mais nada.
Regina, 32, presa por roubo, pena de 5 anos e 12 dias.
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"Aprontei muito aqui"

Vim presa aos 18 anos. Estou com 33 e todos os meus aniversários eu passei atrás das grades. Cumpri 13 anos direto, saí, fiquei menos de um ano na rua e voltei. Já morei em todas as penitenciárias femininas, menos em Ribeirão Preto. Minha pena não era alta, nunca matei ninguém. Vim condenada por roubo. Fui ficando porque aprontei muito aqui dentro, participei das rebeliões. E tudo eu aprendi na cadeia. Porque o verdadeiro crime está aqui. Nunca assaltei banco, não tenho nem arma para isso. Meu problema era o vício, eu assaltava para poder comprar droga. Abordava as pessoas na rua, usava muito a faca. Eu sabia que não ia matar, mas a vítima achava que eu podia fazer qualquer coisa e não reagia. Nunca tirei a vida de ninguém, graças a Deus.
Mirela (nome fictício), 32, presa por roubo, pena de 3 anos, 10 meses e 20 dias.
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"Cresci visitando meu pai preso"

Tanta gente tem uma casa, um serviço, filhos. Por que eu tenho que usar droga, roubar e depois ser presa? Sei lá... Acho que veio no sangue, afinal, fui feita na cadeia. Minha mãe conheceu meu pai quando ia visitar o irmão dela, que estava preso. No final, engravidou de mim dentro de uma cela. Sou filha do Chulapa, superfamoso no mundo do crime. Foi ele quem trouxe o crack para São Paulo. Cresci visitando meu pai no Carandiru e, quando eu tinha 11 anos, ele saiu. Não durou um mês na rua e foi assassinado. Eu assisti à morte dele e me revoltei de vez. Saí da escola, comecei a roubar, a me drogar e não sosseguei enquanto não vi o fim dos seis caras que o mataram. O último eu mesma matei, com três facadas. Eu tinha 19 anos. Foi dentro de um hotel, no Brás. Mataram meu pai para tomar a boca. Mas aquela boca é a minha herança. Quando eu sair, vou atrás do meu prejuízo. O crack é uma droga que afunda, tira a vontade de viver. É um mal que veio para destruir, só que o barato é bom, eu não vou mentir. Quando minha filha nasceu, eu a segurava com um braço e fumava com o outro. Tanto que, quando fui presa, ela sofreu de abstinência e precisou ser levada para o hospital. Agora, já perdi a guarda dela. Na verdade, não quero passar o resto da vida presa. Mas não sei se vou ter força. Eu tenho uma raiva, um vício. Vi o fim do meu pai, minha mãe tem HIV, tuberculose e cirrose. O meu final vai ser como? Sair da cadeia, tomar um tiro e morrer?
Márcia, 23, presa por roubo, pena de 11 anos, 8 meses e 13 dias
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"Mandei matar meu ex-marido"

Isto é um submundo. A gente aprende a sobreviver, mas não se acostuma. Se eu me habituar, perco a referência, que é ao que eu mais tento me apegar nos dez anos que estou presa. Sou formada em história e era professora universitária. Estou aqui por ter mandado matar meu ex-marido. Ele machucava meus filhos, chegou a arrancar a orelha do menor. Eu pedia que as visitas dele às crianças fossem monitoradas, mas nunca consegui. Não aguentei. Sou homicida? Não. Mataria alguém na rua? Nunca! Não acho que é certo ou errado o que fiz. Tudo foi fatalidade. Para não "emburrecer", me tornei professora da Funap, o que faz com que eu converse muito. Elas me contam porque eu sou como elas, uso uniforme. Há meninas que se sentem menos presas aqui: lá fora apanhavam do marido, eram estupradas pelo pai. Aqui se sentem gente. Tenho alunas que ganharam a liberdade e fazem faculdade. Entraram cruas e saíram com um projeto. Tenho certeza de que a educação é o único fator ressocializador em um presídio.
Maria Eduarda (nome fictício), 36, presa por homicídio, pena de 38 anos e 6 meses.

Vista externa da Penitenciaria Feminina do Estado, localizada no bairro de Santana, na zona norte da capital paulista.

                                      Marlene Bergamo/Folhapress

"Dá medo de como vão me olhar"
Conheci meu namorado na cadeia. Eu trabalho na oficina de óculos, e ele vinha repor o material. Conversa vai, conversa vem, e aconteceu. Agora só precisa ter paciência para me esperar sair. Fui condenada por latrocínio e sequestro. Comecei no crime menor de idade e, quando fiz 18, fui pega logo. Minha primeira vítima quase tomou o revólver e me deu um tiro. Mas consegui sair com R$ 1.000 e fiquei animada. Depois do primeiro, você não para mais. Já aconteceu de eu estar num assalto, ter que atirar, e a vítima morrer. Não que eu quisesse matar. No desespero, você acaba atirando pra tudo quanto é lado. Estou na sexta parceira de cela. A relação fica muito forte, rolam vários sentimentos. Com uma, namorei quatro anos, fazíamos planos de ficar juntas lá fora. Mas todo mundo vai embora, só fico eu. Dá muito medo de sair. Medo não de como eu vou encarar o mundo, mas de como o mundo vai me olhar. Aqui é uma passagem. É tenebrosa, mas vai terminar. E depois, como vai ser?
Marelly, 27, presa por tráfico, pena de 43 anos e 9 meses

Fonte : Revista sãopaulo.

10 de mar. de 2012

Filho de empresário de Timóteo é preso traficando cocaína com namorada e cunhada




É grande a repercussão na região da prisão de filho do empresário timotense¸ juntamente com sua namorada e sua cunhada em um carro de luxo, Ford Fusion. Edmarley José Dias Guerra, 24, administrador de empresas e a namorada Jenifer Paula Verly Silva, 24 foram presos quando chegavam à casa dela, situada na rua Poços de Caldas, nº 49, no distrito do Melo Viana. Na casa de Jenifer os policiais prenderam também sua irmã Raquelli Verly, que os levou até a casa de sua avó, que fica em frente. Na residência foram encontradas duas balanças de precisão ainda sujas de cocaína mais um kilo da droga.

A droga apreendida, 1,3 quilo de cocaína misturada com crack, além de eletrodomésticos, computadores e documentos de carros de pessoas apontadas como traficantes, permitiu a polícia apontar os suspeitos como acusados por tráfico de drogas. Eles se encontram presos no Centro de Remanejamento de Presos (Ceresp), onde ficarão até o julgamento.
Segundo os policiais que participaram da operação, a polícia conseguiu informações que Edmarley tinha chegado de Belo Horizonte com um carregamento da droga que teria vindo de uma quadrilha chefiada por Délio Caetano de Andrade Freire, traficante de Belo Horizonte.

Segundo os policiais, o grande número de denúncias feitas à delegacia de Ipatinga informando que Edmarley estava traficando drogas foi importantíssimo para este desfecho, eles ainda informaram que sabiam que Edmarley  tinha ido à Belo Horizonte buscar o carregamento que seria entregue no bairro Veneza, em Ipatinga. Provavelmente o grupo também comercializava drogas pela Internet. Edmarley é apontado como gerente de tráfico no Vale do Aço.

                                           O Ford Fusion placas HAX-7224, 
                                    apreendido com os jovens está na delegacia de Ipatinga

Os três jovens são estudantes e como é comum na classe tida como média, tem página em site de relacionamento na internet. Em sua página, onde tem 810 “amigos”, Edmarley escreveu: “Inveja é um sentimento de aversão ao que o outro tem e a própria pessoa não tem. Este sentimento gera o desejo de ter exatamente o que a outra pessoa tem de tirar essa mesma coisa da pessoa", escreveu.

Segundo declarações dos policiais várias pessoas aplaudiram o desempenho da polícia neste caso. Um pai de uma adolescente comentou a prisão: “quem bom, espero que apodreçam na cadeia, traficante é pior que ladrão, o ladrão nos roupa um celular, um carro, o traficante rouba nossos filhos tirando-lhes a dignidade”, desabafou.

Essa operação denominada Jamaica, contou com a participação de equipes das delegacias de Tóxicos e Entorpecentes, Furtos e Roubos.

fonte: Da redação do Plox

9 de mar. de 2012


VIDA BANDIDA



Lobão : "A verbalização diminui a criminalidade"

Uma noite aparentemente plácida e quente no verão paulistano. Nikita, um homem apreensivo, nervoso, inseguro e, com a adrenalina a mil, dirige o seu carro em direção a Avenida Nove de Julho. Ele faz uma oração. Momentos depois seu amigo, o Nelsinho, entra no carro e Nikita diz para ele:
- Então, vamo que vamo!

Nikita estava indo praticar um assalto.

Houve tiroteio, Nelsinho morreu. Nikita foi preso e dava início à sua brilhante carreira no mundo do crime. Seu currículo fala por si só. Condenado por 98 anos, é indiciado por furto, assalto à mão armada, falsidade ideológica, latrocínio (roubo seguido de morte) e teve o mérito, segundo ele, de inaugurar o seqüestro relâmpago em São Paulo.

No momento, fiquem tranqüilos, Nikita se encontra preso no Complexo Penitenciário do Carandiru. Entre os seus projetos para o futuro, está o de puxar pelo menos mais quinze anos de cadeia. À margem da sociedade, Nikita é um homem comum e, em seu universo paralelo e marginal, possui um cotidiano semelhante ao de qualquer cidadão íntegro, que paga em dia seus impostos.

Da mesma forma, caro leitor, que você reza quando vai enfrentar algum desafio profissional, Nikita reza para ir assaltar e matar. Do mesmo modo, que você se preocupa em construir uma sólida carreira profissional articulando contatos, reciclando conhecimentos, fazendo política, parcerias e troca de favores, Nikita, em sua vida bandida, também o faz.

Em entrevista ao Vya Estelar , perguntei ao escritor Ignácio de Loyola Brandão, que conhece a história de Nikita. Qual seria a saída para esse sujeito, um condenado a 98 anos, que fala em puxar pelo mais quinze? Loyola responde: Só resta a Nikita escrever suas vivências, como escreveu neste belo projeto, o livro Letras da Liberdade, ED.Madras, no qual tive a oportunidade de comentar o seu relato autobiográfico.

Depois deste prólogo, o leitor deve estar se perguntando... Por que um assunto tão heavy como este, pode pautar um site que aborda autoconhecimento e qualidade de vida? O livro Letras de Liberdade é uma obra que reúne 15 histórias e contos escritos por detentos do Complexo Penitenciário do Carandiru. Algumas histórias contam desde a infância dos presidiários até sua chegada à cadeia, pais e educadores procuram a obra para conhecer o caminho que pode levar as crianças ao crime e detectar os primeiros sintomas, de mudança de comportamento dentro de casa, que levam o jovem para a marginalidade.

Amigos e parentes de pessoas com histórico de alcoolismo ou uso de drogas ilícitas procuram, através da obra, entender o vício e ajudar a pessoa a se livrar dele. No entanto, o mais interessante é a sensação que o livro promove em qualquer pessoa: a percepção de que até um de nós, cidadãos considerados íntegros e equilibrados mental e socialmente, podemos cair nesse submundo. Lobão, Ignácio de Loyola Brandão, Marcelo Rezende, entre outros, comentam um conto escrito por um detento.

O livro é fruto de uma idéia simples e despretensiosa. Alguns detentos do Carandiru, que concederam depoimentos ao Dr. Drauzio Varella, queriam contar de seu próprio punho, as suas histórias imersas neste universo descrito pelo médico. Através de concurso, 15 textos foram selecionados, num total de 345. Loyola comentou a história mais pesada do livro - a de Nikita - onde a realidade sucumbe a aterradora ficção. Lobão escreveu sobre a vida bandida de Vanderlei Fisher, indiciado por assalto à mão armada e furto, condenado a 10 anos de prisão.

Nesta entrevista ao Vay Estelar, o cantor Lobão e o escritor Ignácio de Loyola Brandão falam de suas participações no livro e opinam sobre os mecanismos da violência. Lobão também fala de seu desejo de não precisar escrever mais letras denunciando a violência urbana e de um fato inusitado acontecido na sua prisão. O cantor também revela o seu jeito de ser.


Entrevista: Lobão.


- Vya Estelar - Você comenta no posfácio que quando você foi preso te perguntaram: "cara, aqui na prisão só tem preto, pobre ou burro... onde tu enquadra?" O que você respondeu para este sujeito?
- Lobão - É claro que eu ri. É o tipo da pergunta que não precisa de resposta. A pergunta é uma realidade em si.

- Vya Estelar - Por que você decidiu escrever o posfácio do Livro Letras da Liberdade sobre a vida do detento Vanderlei Fischer?
- Lobão - Porque fui convidado a fazê-lo, li, adorei e escrevi.

- Vya Estelar - Através do texto narrado por Vanderlei você percebeu um misto de afeto e arrependimento. Você acredita que um projeto deste tipo (livro Letras da Liberdade) pode ajudar na causa do combate a violência?
- Lobão - Claro que sim. Está mais do que provado que a verbalização diminui a criminalidade.

- Vya Estelar - Em seu posfácio você comenta que o cara ao sentir as agruras da exclusão se sente entusiasmado de ser respeitado através do crime. Como é isso? Esta seria a causa da violência?
- Lobão - A causa da violência é a falta de contato com o outro. Esse é o início de tudo.

Vya Estelar - Você comenta também a questão de jovens da classe média entrarem no tráfico de drogas para terem status social (minas, carros, celular)? Mesmo na classe média, a causa da entrada de jovens no crime, passa pela questão social somente ou você atribuiria algum outro fator?
Lobão - A coisa é bem mais complexa né? Mas o fator principal é o tédio e a falta de informação e perspectiva.

- Vya Estelar - Como você avalia o seguinte discurso "...as pessoas falam em direitos humanos, mas bandido bom é bandido morto... "?
- Lobão - Isso é de uma imbecilidade escandalosa.

- Vya Estelar - Por que no seu texto você comenta que os detentos ao narrarem suas experiências melhoram a auto-estima?
- Lobão - Porque tem condições de avaliar, de reconhecer e tudo isso é exercido pela verbalização, ou seja, são inúmeros aspectos meritórios e dignos de auto-estima, não é verdade?

- Vya Estelar - Você acha que este livro seria um alerta para pais e filhos detectarem os primeiros sintomas do caminho do crime?
- Lobão - Eu acredito que, antes de mais nada, é um livro rico de informações, escrito com muita verdade e emoção, que proporciona ao leitor um contato mais profundo com a realidade profunda de uma outra classe social tão próxima e tão distante.

- Vya Estelar - Qual é o caminho para você não precisar mais escrever letras como "Vida Bandida" e "A Vida É Doce" e escrever apenas temas mais amenos como "Universo Paralelo." ?
- Lobão - Em primeiro lugar, gostaria de dizer que o bacana é justamente escrever coisas como a Vida É Doce (uma ironia da vida urbana atual) e outras como o Universo Paralelo. A letra de Universo Paralelo possui uma proposta ambígua. Tanto pode ser uma transa, um movimento estético, um movimento político ou talvez uma caminhada.

- Vya Estelar - Você acredita nesta teoria do hiperespaço, do Universo Paralelo, defendida por alguns físicos, como Michio Kaku, sobre a existência de outras dimensões?
- Lobão - Eu acredito no Universo Paralelo sem sombra de dúvidas.

- Vya Estelar - Como você busca autoconhecimento e qualidade de vida?
- Lobão - Eu sou eu 24 horas por dia, intensamente.

- Vya Estelar - Você é místico? Tem religião?
- Lobão - Não.


Entrevista : Ignacio Loyola Brandão.


- Vya Estelar - Por que você escreveu o comentário sobre o texto de Nikita no livro Letras da Librdade?
- Loyola - Fiquei fascinado com o projeto. É uma possibilidade de você ver de perto como os encarcerados olham o mundo. É impressionante pensar que o Nikita vivenciou o que ele escreveu. No meio de tanta violência é possível captar em seu texto imagens poéticas. Vida e literatura se misturam.

- Vya Estelar - O que mais te tocou no texto do Nikita?
- Loyola - A normalidade como Nikita trabalha no mundo do crime me impressionou. Ele só não bate o ponto.

- Vya Estelar - Qual é a saída para um bandido condenado a 98 anos de prisão como o Nikita?
- Loyola - A saída dele é escrever. Não sei nem se nós temos saída.

- Vya Estelar - Por onde passa a questão da violência?
- Loyola - Passa pelo intimo do homem e pela própria natureza humana. Alguns são violentos e alguns se contém.

- Vya Estelar - Você acredita que um projeto deste tipo pode amenizar o problema da criminalidade?
- Loyola - É uma gota no mar, mas é uma parte.

- Vya Estelar - O livro poderia ser um sinal de alerta para os pais detectarem algum envolvimento dos filhos com a criminalidade?
- Loyola - Pode ser. Porém, a questão das drogas é uma questão mais complicada. Envolve o sabor do fruto proibido, a moral cristã e etc...



                                         Conto - Fragmentos - Crime:
                           Problema ou solução? Caminho sem volta.


Autor : Nikita (relato autobiográfico)

A Ficha.

Nome: Nikita
Data de nascimento 17/02/1960
Indiciação: Furto/Assalto à mão armada/Falsidade ideológica/Latrocínio Condenação: 98 anos.


Nikita reza antes de ir fazer um assalto num prédio da Avenida 9 de Julho em São Paulo


"Era uma noite muito quente de verão paulistano. "Maó Calor". Fiz minha oração. Liguei o carro e fui para o encontro do Nelsinho.
-Tá em cima. Então, vamo que vamo!"


Nikita avalia o mercado de trabalho

"Com um pouco de dinheiro que tinha guardado e com muita astúcia, consegui um albergue domiciliar em 1983. Chegando na rua, vi que agora as coisas tinham mudado muito sob o aspecto da criminalidade. Quem roubava comércio, "ap." ou indústrias, agora estava roubando bancos. Era a "febre dos bancos" como ladrão falava."

Self made man

"Logo que fui até a casa de um parceiro antigo que sempre mantinha contato comigo na prisão. O Português estava muito bem no tráfico de drogas: dois carros, duas casas e um enorme estoque de maconha. Quando cheguei, ele me deu um 38 e 23 balas, 12 de chumbo e 11 dum-dum. Presenteou-me com um quilo de maconha e me aconselhou:
- Pega leve que a rota está matando"

Jantar à luz de balas

"Comprei um Golzinho e fui lá no Galvão. Houve um bate-boca entre o Galvão e um cara. As coisas ficaram muito quentes e saíram na mão. O Galvão sangrava muito. Entrei na confusão e dei dois tiros no "prego" - o agressor do Galvão - , que caiu no chão sangrando muito. Estragou o jantar."

Nikita: bandido cidadão e chefe de família
Sobre um convite para assaltar uma agência de turismo - roubo de dólares

"Gostei da idéia, pois agora mais do que nunca iria precisar de muito dinheiro, pois com mulher e filho as coisas mudavam muito."

Planos de carreira

"Agora só saio daqui se fugir, do contrário, tá embassado. Estou preso há 20 anos. Será que consigo puxar mais 15?"

fonte: www2.uol.com.br

Estudo revela que jovens entram no mundo crime em busca de sexo e poder

Comunicação Portal Social
Em tempos de crise econômica, o tráfico de drogas não dá mais aos seus "funcionários" o retorno financeiro que já deu. Então por que crianças e jovens continuam entrando para o crime?
Por sexo e poder, segundo a pesquisa “Meninos do Rio: jovens, violência armada e polícia nas favelas cariocas”, promovida pelo Unicef e coordenada pela cientista social Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Criminalidade e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes. O estudo visa a atualizar e a aprofundar o conhecimento sobre as dinâmicas de atração, manutenção e saída de jovens da violência armada e fazer recomendações ao escritório do Unicef no Rio de Janeiro para subsidiar ações contra a violência.
Lançada na semana passada, a pesquisa encontra nas chamadas "marias fuzil" uma forte explicação para o fascínio que os grupos ilegais e as armas exercem sobre crianças, adolescentes e jovens. Questionados por que entram para o tráfico, os jovens alegaram "sensação de poder e mulher".
“Um rapaz disse que a arma chama atenção e que a mulherada gosta. Outro explicou que a questão é o poder que ela representa”, afirma Silvia no relatório. As meninas, por sua vez, também disseram que se relacionar com traficantes dá "sensação de poder".
A pesquisa foi realizada entre maio e novembro de 2008 com jovens moradores e moradoras de favelas da cidade do Rio de Janeiro – estudantes universitários, ex-traficantes, traficantes, milicianos –, mães de jovens envolvidos com a criminalidade, lideranças comunitárias e culturais e técnicos de organizações da sociedade civil.
Ao todo, 104 pessoas participaram formalmente da pesquisa qualitativa, o que resultou em aproximadamente 400 páginas de transcrições e diários de campo. Sete grupos focais reuniram 87 jovens, técnicos e mães. Dezesseis lideranças e personagens foram entrevistadas e consultadas. Adicionalmente, uma pesquisa quantitativa foi realizada com a participação de 14 jovens que entrevistaram 241 rapazes e moças de 14 a 29 anos na Zona Oeste da cidade.
Crise no varejo
O estudo identificou que, entre as principais mudanças ocorridas na dinâmica do tráfico de drogas nos últimos anos, está a redução dos rendimentos obtidos pela venda das drogas. Um ex-traficante, atualmente em uma cadeira de rodas, resumiu a situação econômica do tráfico: “Com certeza, eu trabalhando no sinal, ganho mais dinheiro do que vagabundo que trabalha no morro. Não só os novinhos não, tô falando de gerente.”
A crise do mercado de varejo deve-se, em parte, ao fato de que compradores de classe média deixaram de ir às favelas por causa da violência dos próprios traficantes e da polícia. Outra razão seria o ingresso no mercado de drogas sintéticas, especialmente o ecstasy, que seriam importadas e chegariam aos consumidores sem passar pelas favelas.
Já a cocaína, segundo a pesquisa, droga altamente rentável para o mercado ilegal e consumida pela classe média, teria encerrado seu império, prejudicada pela intervenção da polícia, seja em operações de confronto, seja em extorsões. Mais um aspecto é a chegada às favelas cariocas do crack, que seria mais compatível com o pequeno poder aquisitivo dos consumidores da própria localidade, porém menos rentável para quem vende.
Com a crise, afirma o estudo, as bocas de fumo passaram a ser pontos de referência não só para a venda de drogas, mas também para outras atividades criminosas que dependem das armas, como roubos no asfalto. "Quando o tráfico já não dá mais dinheiro, ou dá muito pouco, é difícil aceitar que a perspectiva financeira seja a mais forte para explicar sua – ainda – enorme capacidade de atração sobre alguns", afirma Silvia Ramos.
Marias fuzil
E onde entra o sexo na história? Segundo a pesquisadora, o tema da sexualidade se impôs à pesquisa, mesmo não estando no roteiro prévio. "A informação mais repetida, confirmada, explicada e reassegurada – e ainda assim surpreendente e obscura – é a supremacia das armas para atrair mulheres, meninas bonitas, da favela, de fora e até de outra classe social. As chamadas 'marias fuzil' estariam sempre presentes na vida da boca de fumo, especialmente durantes os bailes funk, e muitas vezes foram definidas como a maior razão para explicar o fascínio que os grupos ilegais e as armas exercem sobre crianças, adolescentes e jovens", explica.
O relatório explica que o baile funk é um momento em que jovens que moram na favela e não têm envolvimento com os grupos do tráfico podem conviver com aqueles que estão no tráfico, compartilhando um pouco da cultura do tráfico, cantando as mesmas músicas – os "proibidões" do funk - e assistindo ao desfile das armas.
O depoimento da mãe de um adolescente cumprindo medida complementa: “O menino não tem nada, onde cair morto, mas sabe quantas mulheres ele tem? Quantas ele quiser. Dependendo da arma, mais mulher tem.”
O fenômeno é confirmado por um técnico de projeto em favela: "não tem mais essa remuneração, eles conseguem assim comprar um tênis, mas não arrumam mais do que isso. O que eles conseguem hoje é a atenção dessas meninas. Elas ficam loucas com arma e cordão de ouro."
Disputas interpessoais
No relatório, Silvia observa que nenhum estudo indicou ainda quais são exatamente as principais dinâmicas geradoras de violência letal entre jovens pobres e negros moradores das favelas e dos bairros pobres da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Mas o uso frequente de armas de fogo é forte indicação de que as mortes se associam, direta ou indiretamente, aos grupos armados ilegais que dominam áreas da cidade e que se opõem a outros grupos armados e/ou à polícia.
Entretanto, não se conhece a proporção de mortes que atingem os participantes diretos desses grupos (“traficantes”, “milicianos”, “policiais”), nem os indiretos (amigos, familiares, cônjuges, usuários de drogas etc) ou os contingentes (colegas, vizinhos, moradores de bairros próximos, pessoas presentes em um assalto em ônibus, passantes em uma via da cidade durante um tiroteio, envolvidos em uma briga de festa etc). Segundo Silvia, não se conhece as dinâmicas geradoras de letalidade nem mesmo dentro do recorte “mortes no tráfico”.
“O impacto de um tiroteio numa guerra de facções ou num confronto com a polícia tende a nos levar a esquecer as incontáveis mortes efetuadas dentro dos grupos armados por acertos de contas ou diversas razões de trabalho, e também por disputas amorosas e familiares, por rixas e conflitos banais que encontram desfecho letal na onipresença das armas e de uma cultura masculina agressiva e explosiva”, observa.
A pesquisadora frisa que a divisão clássica entre violência interpessoal de um lado (entre pessoas que se conhecem, sem fins lucrativos) e violência coletiva (ou crime organizado) de outro não se sustenta. “Na prática, o que observamos é que parte importante da violência letal ocorrida no contexto do chamado tráfico de drogas é resultante de conflitos e disputas interpessoais. As fronteiras entre naturezas criminais, no contexto de alta letalidade de jovens de favelas, se encontram indefinidas”, diz.
Uns saem, outros...
Os pesquisadores perguntaram em todos os grupos focais e entrevistas por que alguns jovens entram para os grupos armados ilegais que dominam as favelas e outros não. Após considerações genéricas sobre as razões que contribuem para adolescentes buscarem o caminho do crime, imediatamente se seguiam histórias que contradiziam essas razões.
"É claro que em muitos casos adolescentes vão para o tráfico ou as milícias em busca de dinheiro, alternativa profissional, para fugir de famílias violentas, para escapar de pais ou mães alcoolizados e degradados, ou por outros motivos socioeconômicos clássicos. Mas é importante perceber que em muitos casos as trajetórias de vida não correspondem a essas razões mais óbvias ou frequentes”, observa Silvia.
Segundo ela, é importante ter em mente que o apelo monetário que o crime pode exercer não é o motivo mais decisivo ou pelo menos não é mais tão decisivo quanto na época das grandes remunerações, o que obriga a reconhecer o limite dos projetos para jovens de favelas que baseiam sua existência na oferta de ajuda financeira (bolsas).
Vários técnicos mencionaram que precisam negociar dia a dia a manutenção de certos garotos em projetos que oferecem algum dinheiro, mas não oferecem algo que alguns talvez busquem ao entrar para o tráfico. Procurando fazer uma lista de situações e condições que mais levam os jovens a entrarem para o crime, além da necessidade financeira e do desejo de visibilidade, as razões mais frequentes surgidas nos grupos focais e entrevistas foram: ter vivido uma situação de injustiça (por parte da polícia, na escola, dos amigos ou de outros jovens); ter alguém da família envolvido no tráfico; família desestruturada, ausente; e não ter perspectiva de futuro.
A pesquisadora pondera, entretanto, que cada uma dessas razões deveria ser vista com bastante cautela. Realmente, a família parece ser um ponto-chave nas histórias de entrada, mas também - e principalmente - nas histórias de saída de jovens dos grupos armados ilegais. "Ouvimos muitas histórias em que, exatamente por vir de uma família em que um pai ou um irmão tinha ido para o tráfico, tudo tinha sido feito para que aquele jovem não entrasse. Ou seja, o que parecia ser o veneno revelou-se o antídoto", explica.
Milícias também seduzem
A pesquisa verificou que os grupos de milicianos também podem ser atrativas fontes de renda e emprego para os jovens, o que contraria a ideia de que milícias não empregam jovens e que são formadas apenas por pessoas mais velhas, profissionais de polícia. De acordo com a pesquisa, a crise do tráfico e a consequente redução dos ganhos ilegais, fizeram com que alguns policiais resolvessem obter lucros controlando diretamente territórios e não mais indiretamente, extorquindo traficantes que controlavam territórios.
Os depoimentos mostraram que, mesmo após a conclusão da CPI das Milícias, que identificou chefes, locais e modos de operar desses grupos, eles não só continuam fortes como parecem estar mais estruturados do que antes.
"As milícias hoje passam a ter estrutura e autonomia suficientes para sobreviver e prosperar mesmo com importantes lideranças na cadeia. Todas as políticas de redução da violência letal e as políticas voltadas para jovens de favelas e bairros populares terão de levar em conta que os grupos de milícias não só são uma realidade presente, geradora de letalidade em graus que ainda não se pode mensurar, como provavelmente persistirão pelos próximos anos", atesta o relatório.
A parcela da polícia
Em relação às histórias de injustiças que deflagraram a decisão de jovens de se associarem a grupos armados locais, diversas são ligadas a uma ação arbitrária da polícia que envolveu humilhação. Nos sete meses de estudo, os pesquisadores ouviram inúmeros casos de atuação vergonhosa de policiais.
"Não se trata apenas dos mais de mil mortos pelas forças policiais ano após ano, das evidências de corrupção generalizada em muitas áreas e da proliferação das milícias sob os olhos complacentes de comandantes e chefes de polícia. Trata-se de uma cultura policial arraigada que naturaliza o desrespeito a todos os moradores das áreas pobres da cidade, banaliza a brutalidade e de certa forma justifica a cada dia o próprio fracasso através da lógica da guerra contra o crime", afirma Silvia.
Para ela, a polícia é pelo menos parcialmente responsável por essa tragédia, mas isto não impede de compreender que ela também seja parte absolutamente fundamental da solução, já que se faz necessária para a desocupação dos territórios dominados por traficantes e milicianos e para a diminuição da presença de armas e munições nesses locais. Essa desocupação, segundo Silvia, só será bem sucedida se for realizada por policiais honestos e respeitosos em relação aos moradores das favelas. Ela também destaca a importância da retomada do debate sobre o desarmamento.
"Não se trata de operação policial, mas do estabelecimento de policiamento comunitário permanente, em quantidade suficiente, supervisionado por oficiais superiores que devem se encontrar nas favelas (e não dentro dos batalhões) e controlado pela mídia, por organizações locais e pelos moradores", recomenda.
Outras ações necessárias para reduzir a letalidade provocada pelo envolvimento de adolescentes em grupos armados são a melhoria das escolas, a criação de empregos, a ampliação de alternativas profissionais, programas de bolsas e iniciativas culturais para fortalecer a imagem do jovem de favela. Mas Silvia enfatiza o papel da polícia:
"Ações sociais, culturais e pressão política sobre governantes, por si sós, não são capazes de eliminar as armas e reduzir a violência letal. Em nenhum lugar e menos ainda no Rio de Janeiro. É na polícia, portanto, que parte de nossas energias tem que ser concentrada nos próximos anos."
O estudo é dedicado à memória da pesquisadora Ana Carolina Rodrigues da Silva Dreyfus, do Viva Rio, que trabalhou na pesquisa e faleceu aos 28 anos de idade no desastre do vôo AF 447, da Air France, em 31 de maio de 2009.

Fonte: Envolverde (
www.clickrbs.com.br)

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