NOSSAS EXPERIÊNCIAS

13 de jan. de 2012

A Aids tem um vírus transmissor, o HIV, mas se multiplica em ambiente de desinformação. Não é por outra razão que o último relatório da Organização Mundial de Saúde mostra que nove de cada dez casos da doença registrados no mundo ocorrem em países pobres ou em desenvolvimento. Há mais casos no interior que nas capitais e o crescimento é mais acentuado entre pessoas pobres e de baixa escolaridade. "Não me preveni e me comportava como se o amor me garantisse a imunidade. Talvez se eu fosse promíscua hoje me preocuparia com a camisinha e não teria o vírus da Aids", diz Simone Borges, 29 anos, técnica em radiologia do Rio de Janeiro, que contraiu Aids com um namorado. "As mulheres que têm vários parceiros sabem dos riscos que correm e por isso se cuidam", afirma o cancerologista paulista especializado em Aids, Dráuzio Varella. "Já as monogâmicas acreditam que a fidelidade é uma proteção."
A incidência de Aids entre mulheres está aumentando por uma trágica combinação de fatores biológicos, econômicos e sociais. Os principais motivos, de acordo com médicos, psicólogos e grupos de apoio a infectados, são os seguintes:

 * A mulher tem dez vezes mais chance de contrair o vírus de um homem infectado do que um homem de ficar doente relacionando-se com uma mulher soropositiva.

 * para um homem se contaminar numa relação com uma mulher portadora do vírus é necessário que seu pênis esteja ferido. É muito mais fácil notar o ferimento no pênis — e assim se proteger com camisinha — do que uma lesão interna na mulher, que pode passar despercebida.

* o esperma contaminado tem uma concentração de vírus várias vezes maior do que a encontrada na secreção vaginal de uma mulher soropositiva. Além disso, o tempo de permanência do pênis em contato com a secreção vaginal é muito menor do que a da mulher em contato com o esperma.

* em geral, os homens comandam a relação sexual, usando camisinha quando lhes interessa. Nos depoimentos aos grupos de apoio a portadores do HIV são comuns as histórias de maridos que tomavam como ofensa a sugestão de usar preservativo. É como se a mulher o estivesse acusando de ser infiel.

 * embora não existam estatísticas a respeito, a experiência dos médicos mostra que é grande o número de homens casados, aparentemente insuspeitos, que gostam de uma aventura homossexual de vez em quando. "Eu afirmaria que a maioria dos homens que infectaram suas mulheres foi contaminada numa relação homossexual", declara o infectologista David Uip, de São Paulo.

 * muitos casais param de usar preservativos no momento em que consideram que o relacionamento se tornou sério ou quando passam a morar juntos. "Para eles, o preservativo é como se fosse uma formalidade", explica Dráuzio Varella. "É usado na época em que os parceiros se estão conhecendo, mas depois é abandonado."

Para a ciência não há dúvida de que a Aids é mais cruel com as mulheres do que com os homens. Dois estudos recentes apresentados por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, reforçam a fragilidade da mulher diante do vírus. Comparando um grupo de homens e outro de mulheres que estavam no mesmo estágio da doença, as universidades verificaram que os sintomas progridem mais rápido no sexo feminino, independentemente dos medicamentos usados ou do nível de células de defesa que a paciente tenha. Ainda não se sabem os motivos dessa diferença biológica, mas estuda-se uma hipótese relacionada à ação dos hormônios femininos. Some-se a isso o fato de que os maridos que levam a Aids para dentro de casa em geral não fazem o teste do HIV. As mulheres descobrem a doença normalmente depois que os companheiros adoecem e já perderam um bom tempo no processo de tratamento.

Ao saber que está com Aids, a mulher tem uma primeira reação previsível, igual à do homem: a raiva, o ódio, a vontade de cometer uma loucura contra o responsável por sua contaminação. "Quando soube que era HIV positiva, que havia sido infectada por meu marido, esperei que ele chegasse em casa, olhei para ele e disse: 'Você me matou'. Fiquei com tanta raiva por ele não ter me contado que perdi o controle e bati nele. Depois disso, já tentei suicídio duas vezes", conta Jacqueline Normandia, 32 anos, operadora de telemarketing em Belo Horizonte. Após essa fase de fúria, a mulher passa a demonstrar reações distintas das do homem, bem menos egoístas. A tendência masculina é fazer o possível para evitar que a notícia se espalhe. O motivo é sabido. Tem medo de que os amigos pensem que ele é gay. Nessa hora, inventa histórias para a própria mulher. Se o casamento é recente, conta que contraiu o vírus de uma antiga namorada. Se o casal enfrentou uma separação, diz que teve um caso eventual nesse período com outra mulher. Já a mulher prefere contar logo o ocorrido para a família. Nas conversas com os médicos ou psicólogos, ela demonstra também preocupação imediata com o futuro dos filhos. Afinal, quem vai cuidar deles depois que ela se for? Isso sem contar a dor imediata das crianças. Na escola, os amigos acabam sabendo que a sua mamãe pegou Aids e quem passou foi o seu papai.

"Cuidei dele até o fim" — Outro dado curioso é que, apesar do ódio, as mulheres dificilmente abandonam seus maridos, ainda que só estejam nesta situação terrível por causa deles. "Meu marido morreu de Aids no ano passado e cuidei dele até o fim. Minha preocupação era dar força para ele lutar contra a doença", afirma a dona de casa Greicilene Rodrigues, de 24 anos, de São José dos Campos. É claro que a presença do vírus produz outros tipos de reações, pessoais, delicadas e extremamente compreensíveis. "Tenho vontade de namorar, tenho desejo sexual, mas quem vai querer uma mulher com Aids? Ainda mais com tantos filhos", desabafa a viúva Renata Frazão, sete filhos, carioca de 35 anos que perdeu o marido com Aids.

"Se eu pudesse voltar atrás..." — O avanço da Aids entre as mulheres, da forma como vem ocorrendo, exige que as pessoas pensem um pouco mais nos seus relacionamentos íntimos. O casamento é uma aliança que envolve rotina, uma base sólida para a criação dos filhos e a manutenção da família. Não é um acordo em torno de aventuras. Com o tempo, a paixão pode arrefecer, mas sobram a amizade, a confiança, uma história comum. O casamento, como outras instituições, passa por ciclos. A paixão na lua-de-mel, a adaptação à vida a dois nos primeiros anos, o primeiro filho por volta do quarto ano e, em um determinado momento, a "crise dos sete anos", seguida da crise dos dez, quinze, vinte... Os dois se perguntam se valeu a pena o esforço que fizeram no passado e se o casamento merece uma chance no futuro. É a velha história: elas anseiam por romance, eles querem mais sexo. Surge o caldo ideal para a traição conjugal. Sem camisinha, como se vê.

Aguardem continuação final da reportagem


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