NOSSAS EXPERIÊNCIAS

9 de jan. de 2012

Adolescentes vendem o corpo como mulher AUGUSTO PINHEIRO

Folha de São Paulo É um coquetel molotov: preconceito, violência, maratona sexual e transformação radical do corpo. Esses são os ingredientes da vida de adolescentes que se travestem de mulher e vendem o corpo nas ruas de São Paulo.

Largam o estudo cedo, alguns na 6 ou 8 série. Renata Verissímo, 12 anos (os nomes de batismo não estão aqui a pedido deles), é um dos poucos que terminou o 2 grau. Alguns frequentaram a escola como travestis e, em geral, foram ridicularizados por colegas e professores. Dizem que se prostituem pelo dinheiro "fácil" - ganham até R$ 4.000 por mês. Garantem que largarão essa vida depois de juntar muito dinheiro. Mas, enquanto isso não acontece, enfrentam um dia-a-dia pesado. Atendem, em media, quatro clientes por dia. A maioria na faixa de 35 anos. Há dia em que fazem até 13 programas. "Esse foi o meu recorde" disse Ranata. Cobram de R$ 50 a R$ 70. Dizem que é comum, durante o trabalho, a polícia leva-los em um camburão até o pico do Jaraguá, um local ermo na zona noroeste deSP, de madrugada, e deixá-los no meio do mato. No caminho, "os policiais xingam, espancam", diz um dos jovens travestis. Há também os clientes violentos: "Às vezes, o cara não quer pagar e bate na gente. Um já colocou um revólver pra mim" conta Renata.

Carmita Adobo, psiquatra e coordenadora do Projeto Sexualidade do hospital das Clínicas, diz que essa situação é mais grave devido a pouca idade: "São indefesos, imaturos, tem menos preparo para a vida e mais tendências a se envolver com delinquência, drogas". A história de como viraram travestis é parecida: desde crianças já agiam como meninas.

 Milena Rios, 19, levava toalhe e ursinho para enfeitar a mesa da escola. Danielle Simpson, 17, vestia as roupas da mãe e brincava de casinha. "Há uma dificuldade de identidade sexual na fase da pré-puberdade, que é passageira", diz Carmita. "Mas, às vezes, é o prenúncio de um problema mais sério, um transtorno de identidade sexual em plena infância". As relações homossexuais ocorreram muito cedo- aos 10 anos para Milena, assim como no consumo de hormônio feminino. "Comecei a tomar aos 10 anos, por influência de um travesti mais velho", conta Danielle. "Depois que você se transforma, é incrível. Já parte para trabalhar nas ruas porque ninguém dá crédito para um travesti", diz Renata.
Familía

Diferentemente da maioria, Danielle teve a aceitação da familía. O pai, médico, até indicou o hormônio com menos efeitos colaterais. Já o pai da gaucha Bruna Dumont, expulsou-a de casa aos 16 anos. "Resolvi viajar o Brasil todo fazendo um programa. Fui ao Acre, Amapá, Rio de Janeiro etc" diz ela.

No meio de 30, você engana 29

"Eu sempre quis ser mulher. Na escola só brincava com mulher. Minha mãe tinha de ir toda semana conversar com minha professora. Sabe o que eu levava? Uma toalha rosa e um ursinho para enfeitar a mesa. A professora ficava apavorada. Falava para a minha mãe que eu deveria andar mais com menino. Nunca joguei futebol na minha vida. Na Educação Física eu tinha de usar bermuda, mas dobrava para ficar igual aos shortinhos das meninas. Cortava a camisa para ficar uma blusinha. Aos 10 anos, eu tive uma relação com meu vizinho de 16 anos. Era bem miudinha. Sempre tive o meu lado feminino. Foi boa a minha primeira experiência. Eu acho que estou nessa vida por causa dele. Ele me tratava como mulher, era tudo o que eu queria. Quando começei a tomar hormônio, aos 15 anos, parei de estudar. Não dava certo, todo dia um colega quer te pegar na saída.
O que eu faço no tempo livre? Vou ao Shopping, ao Playcenter, jogar boliche, desço para o Litoral. Sempre saio muito discreta. No meio de 30, você engana 29" (Milena Rios,19) 

Consumo de hormônio aos 10

"Quando eu era pequena, minha mãe desconfiava, até os familiares diziam: Esse menino é muito estranho. Eu era muito educada, fazia tudo em casa porque minha mãe trabalhava, eu me sentia a rainha do lar. Um dia, minha mãe veio conversar, e eu disse: 'O negócio é o seguinte, eu não gosto de mulher'. Ela me abraçou, chorou e disse que, se eu fosse feliz daquele jeito estava ótimo. Uma noite uma amiga e eu decidimos nos "montar". Ela tirou
minha sobracelha e passou batom. Fiquei uma menina. Os meninos na boite ficavam malucos: 'Nossa, parece uma mulher!. Aí mudou tudo. Aos 10 eu começei a me hormonizar por indicação de um travesti de 15 anos". (Danielle Simpson,17)

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